quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Análise Crítica: Balada para Sophie

 


Obra: Balada para Sophie

Argumento: Filipe Melo

Desenho: Juan Cavia

Cor: Juan Cavia, Sandro Pacuci, Santiago R. Villa

Data da Edição: setembro 2020

Edição cartonada

Editora: Tinta da China

410 páginas- 300 páginas com banda desenhada

Preço: 36,00 €

ISBN: 978-989-671-558-8

Dimensões: 176 x 258 mm

 

Análise

Não são todos os autores que têm o privilégio de escrever um argumento que possa ser contado em 300 páginas. Flipe Melo conquistou-o com todo o mérito devido aos seus trabalhos anteriores.

Conquistou-o e aproveitou bem todas as vantagens que ganhou com essa possibilidade. Conseguiu construir uma história onde as personagens fazem todo o sentido e onde o seu perfil psicológico fica bem estabelecido. Não há ninguém que surja nesta história para fazer número. Todos os intervenientes existem porque eram necessários para a história ser contada. Se não estivessem lá, a história ficava pobre, e mais alguém tornava-se excessivo.

Filipe Melo já tinha demonstrado saber contar uma história longa em Os Vampiros, mas em Balada para Sophie consegue espraiar a ação num longo período, que corresponde a uma vida, sem a tornar numa sequência monótona de factos anedóticos. Todos os acontecimentos estão de acordo com as personagens e confluem na prancha final da obra. E, apesar de a identidade de Sophie poder ser adivinhada algumas páginas antes do fim, Filipe Melo consegue surpreender com a prancha final. Inesperada, mas que no conjunto da obra, se percebe que apenas podia ser aquela.

Desconhecemos a forma como o argumento é construído e o modo como o argumentista se coordena com o desenhador: se apresenta um modelo definitivo, se vai alterando com o decorrer da execução do desenho ou se aceita sugestões do desenhador, mas nota-se uma coerência que só é possível perante um argumento muito bem delineado, seja esse trabalho feito de uma única vez ou vá sofrendo alterações.

A história consegue ser contada com um mínimo de legendas. Estas surgem apenas muito esporadicamente e apenas para identificação do tempo e do espaço. Está-se perante uma história em que o desenho e argumento se complementam, e não um texto ilustrado, como muitas vezes sucede em algums obras devido ao excessivo peso das legendas.

O traço, num estilo caricatural, repete a fórmula já conhecida de desenhar de Juan Cavia, mostrando um trabalho cuidado e com atenção aos pormenores. As fisionomias das personagens estão muito bem estabelecidas, incluindo aquelas que vão envelhecendo com o decorrer da história, e que continuam a ser perfeitamente identificáveis nos diferentes tempos.

Nos cenários das vinhetas Cavia tenta o equilíbrio, conseguido, entre situações em que os pormenores abundam, com outras em que um fundo liso ou minimalista, leva o leitor a concentrar-se no enredo, sem se perder na análise do desenho.

Na organização das pranchas, Cavia não apresenta muitas surpresas, e aqui está-se perante ma das situações, em que não se sabe qual a influência do argumentista, (decisão comum, do desenhador ou do argumentista), com pranchas, na maior parte das vezes com três a cinco vinhetas quadradas ou retangulares, separadas por elipses, com dimensões que permitem a identificação clara de cada vinheta.

No entanto, em algumas páginas, Cavia apresenta vinhetas que ocupam mais de meia página, dando realce a emoções que tomam outra amplitude, na perspetiva do leitor, quando a dimensão da vinheta aumenta. Há duas vinhetas de página dupla que são uma obra-prima, designadamente aquela que representa o delírio de uma das personagens.

No que se refere às elipses existem páginas com fundo preto, em vez do branco das restantes, com a elipse a ser negra e usando uma paleta de cores mais fortes.

Essa quebra de ritmo visual é positiva, ajudando a manter o leitor concentrado.

A escolha da tonalidade, não só do fundo de página, mas das vinhetas, serve também para referenciar, alterações de locais, de tempo  e de sentimentos associados às personagens ou aos atos que são narrados.

Cavia usa mais alguns dos recursos da banda desenhada. Além das características das elipses, existem pranchas onde o desenhador junta as imagens, sem a zona separadora, dando-lhe uma sensação de continuidade que não surge na presença da elipse, o que permite ler a página em diferentes sentidos. Na construção das pranchas usa as vinhetas de menores dimensões para grandes planos, e as de maior dimensões quando quer mostrar planos de conjunto ou planos gerais.

Já no que se refere a signos cinéticos, estes não se encontram na obra, e as onomatopeias são usadas de forma muito moderada. Os formatos dos balões e o tipo de letra usada no seu interior servem para demonstrar emoções das personagens, como gritos ou insultos.

Não usando nesta obra longas sequências de vinhetas sem palavras, nota-se no entanto que Cavia usa esse recurso algumas vezes, levando o leitor a ter que recriar um texto que não existe, numa obrigatoriedade de ler o desenho e a sequência das imagens.

Algum do texto não surge em balões tradicionais. Há caixas que poderemos considerar balões, embora sem apêndice, pois comportam texto em que a personagem narra usando as imagens das vinhetas tempo os factos decorridos. Trata-se de um recurso que o autor usa para colocar a personagem a falar sem o balão tradicional.

Conclusão

Sem dúvida que se está perante uma obra de banda desenhada ou literatura gráfica, para quem prefira estes termos, excelente, numa construção que obriga à leitura comum do desenho e do texto, de tal modo eles se complementam. Espera-se pelo próximo livro desta dupla, pois todos os trabalhos até agora publicados revelam qualidade superior.

Uma leitura que vale a pena fazer.

Uma pergunta final. Para quando a edição com uma gravação da balada?

 

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